Hoje já não canto o amor
Nem choro pelos cantos
Hoje o amor decanto.
Jorge Medeiros
(16-01-2914)
sábado, 18 de janeiro de 2014
segunda-feira, 13 de janeiro de 2014
A NOITE DA ESBOSLÁVIA
A NOITE DA ESBOSLÁVIA
Autor: Arnoldo Pimentel
Ao meu irmão Cláudio Rangel
Eu estava
devendo esse conto a você meu irmão. Aquela foi uma das noite mais difíceis que
tive, sei que jamais esquecerei o que passamos ali, os socos, os baldes d’água
na cara, os bichos nas costas, os choques na língua e no pau, os enterros até o
pescoço e toda dor que passamos. Um beijo cara, eu te amo meu irmão.
O corredor era
largo, de um lado ficavam as salas, do outro a vidraça. Ela percorreu o
corredor até a saída que dava para o pátio, que estava vazio. No pátio sentou
num dos bancos, retirou um papel em branco da bolsa e escreveu alguma coisa,
ouviu passos em sua direção, dobrou o papel, colocou em um envelope de carta e
guardou na bolsa.
- O ônibus está lá fora, já é hora de ir, não adianta
mais esperar, não vem ninguém. – Disse uma amiga que chegou ao seu lado.
- O que você colocou na bolsa? – Perguntou a amiga.
- Umas palavras, durante a viagem deixarei em algum
lugar.
- Não tem destinatário?
- Eu mesma.
Ela levantou, cruzou o pátio, saiu pelo portão e entrou
no ônibus.
O carro
saiu da estrada e parou. A estrada era deserta, vez ou outra passava um
caminhão ou um ônibus para o meio oeste.
- Vamos descansar um pouco e comer alguma coisa filho –
Disse o homem que dirigia o carro.
- Pai, eu posso andar um pouco? – Perguntou o filho
- Não vá longe, só enquanto preparo os lanches.
O filho fez sinal com a cabeça e caminhou ao redor,
voltou alguns minutos depois com um envelope nas mãos.
- O que é isso filho?
- Não sei, parece uma carta, achei embaixo de uma pedra,
perto de uma árvore.
O pai pegou o envelope e abriu.
- Está muito gasto – Disse ao filho.
- O que está escrito pai?
- Apenas algumas palavras que vou ler.
“A lua parece tão longe
Como faço para ir até lá?
Deus, meu Deus, onde está você?”
- Não tem mais nada escrito? Perguntou o menino.
- Não, não tem. Entre no carro e vamos embora. – Disse o
pai.
Quando soube dos tiros em Lennon, era prisioneiro,
prisioneiro do silêncio e nem sabia como colher azeitona das oliveiras, não
sabia o que era ser livre, não sabia da liberdade que existia do outro lado do
muro e que podia ver da guarita, onde ficava vigiando o mundo paralelo, mundo
verdadeiro, pintado como submundo. Era
obrigado a dar dez voltas no campo de futebol embaixo do sol do meio dia,
vestindo a fantasia do monstro que destrói vidas, a besta do Apocalypse, mas
tinha sonhos que cantava no violão todas as noites que podia, na varanda que
ficava escondida, lá nos fundos, de frente pra guarda 2.
Naquela noite, solitária como as outras naquele
"recanto", estavam uns dez companheiros, todos muito jovens, reunidos
do lado de fora do alojamento, na varanda que ficava escondida, nos fundos,
todas as noites que podiam ficavam ali, numa roda de violão, a tocar, cantar e
jogar conversa fora.
- Olá meu irmão, pensamos que não fosse vir tocar um
violão.
- Eu queria mesmo era estar andando de skate em Paranoid
Park, sentido o vazio no meu rosto.
- Nosso paraíso é agora cara, é aqui.
- Aqui é nosso inferno.
- Passei a manhã dando voltas no campo, debaixo de 40
graus, com uniforme de combate. Aquele tenente filho da puta.
- Você parecia o monstro do Apocalypse.
- Nós somos o Apocalypse cara, pode acreditar.
- Senta ai logo, cara.
- Deixa eu dar um pega ai meu irmão.
- Não vá fumar tudo.
- Eles contam que os comunistas entraram num alojamento e
mataram muitos.
- Mas não contam que nós, nós porque não temos direito de
escolha, também matamos comunistas.
- E Deus onde fica nisso?
- Deus fica sempre em segundo plano.
- Como assim?
- Se você tiver que atirar em um inimigo para matar você
vai pensar em Deus? Você pensa em Deus quando recebe seu dinheiro e vai trepar
com alguma Maria batalhão? Não, não pensamos em Deus quando nos sentimos
felizes, quando ambicionamos alguma coisa de outro, quando pecamos, você acha
que os pilotos que jogaram bombas em Hiroshima e Nagasaki pensaram em Deus
naquele momento?
- Só lembramos de Deus quando estamos sofrendo, sem
esperança, quando precisamos Dele, essa é a verdade.
- É melhor dormirmos depois da hora do silêncio.
- Lembram o que houve semana passada? Quem estava aqui?
- Eu estava, éramos uns dez como hoje e estávamos
conversando, quando por volta de duas da madrugada, ele subiu aqui no
alojamento.
- Disse que não conseguia dormir com o barulho, mandou
todos nós descermos para o pátio, depois mandou todos tirarem a roupa, chovia
uma chuva fina e fazia um frio da porra.
- Ficamos todos nus, um do lado do outro, de frente pra
ele, por quase uma hora.
- Ele estava embaixo da cobertura, sentado com sua
garrafa de café quente e seus biscoitos.
- Em cima da mesa tinha um cassetete que ele levantou
dizendo: "Se algum de vocês ficar de pau duro eu vou dar uma porrada bem
dada."
- Ficamos ali até ele nos mandar subir e ir para sua
ronda.
- Eu não vejo a hora de acabar meu tempo, ir embora daqui
meu irmão, não vejo pessoas como inimigos, que eu devo abater como um animal.
- Eu também mano, não nasci para isso, não pertenço a
esse mundo, não me identifico com armas meu irmão.
- Isso aqui é uma experiência de vida para nós.
- Desde o momento que você é obrigado, não é experiência
de vida e sim cárcere privado, escravidão.
- Mas nós recebemos para estarmos aqui.
- Dinheiro é vida pra você? Compra sua liberdade, sua
alma, sua dignidade?
- Que tal uma música? Estou prestando atenção nessa
filosofia toda, a vida é foda irmão.
- Vou cantar uma do Belchior, "Velha Roupa
Colorida"
Ficaram ali ouvindo a canção, uns dez companheiros, nem
todos eram amigos, mas estavam juntos ali. Enquanto a música era cantada, um
dos presentes escrevia no caderno que sempre estava com ele nas horas vagas.
- O que escreve ai irmão?
- Estou escrevendo uns poemas.
- Leia ai pra gente, faço o fundo musical aqui.
-Vou ler dois.
- Enquanto você lê os poemas irmão, farei um fundo
musical com "Imagine" em homenagem ao Lennon que foi morto ontem a
tiros. Nós dois não acreditamos na vida bélica, no militarismo, alguns aqui
pensam como nós, outros não, mas sei que nunca esqueceremos os que convivem
aqui.
- Vou ler.
"A SOMBRA, A CANTINA E O VULCÃO
Estou em coma
No campo de obstáculos
Tem um planeta chamado marte
Muitas voltas de suor, um disco de rock quebrado
E uma cadeia para execução dos condenados
Quantas noites eu morri?
Há quantas noites estou morto?
Que sou eu?
Quem somos nós?
Lá fora eu tinha alguns minutos no ônibus
Lá fora, pelo menos eu tinha...
Óculos de plásticos, um violão, uma bateria e...
Alguns minutos no ônibus
BOMBAS
Onde estão as casas
Que as bombas levaram?
Onde nasceram as bombas
Que os bombardeiros soltaram?
Os gritos das crianças chamando
Por seus pais com os olhos embaçados
Ainda vagam pelas luas
E os pedidos de ajuda
Ainda ecoam sem serem
Ouvidos"
- Silêncio, tem alguém subindo.
- O que é isso.
- Gás.
- Calma gente,
deve ser exercício.
- Máscaras, onde estão as máscaras?
- Isso é real seu animal.
- Todos parados.
- Meu rosto está ardendo.
- Não nos matem.
- Todos para o caminhão em fila indiana.
- Por favor tenente.
- Vamos seus animais.
- Depressa seus merdas.
- Vocês vão conhecer a noite da esboslávia.
- O inferno verde vai cair na cabeça de vocês.
- Escolha um.
- Você ai, comigo, você será o coveiro..
- Andem, todos para o caminhão.
- Não nos matem, senhor.
- Vamos todos morrer.
- Mãe, socorro, mãe, mãe.
segunda-feira, 30 de dezembro de 2013
O DIA DO SENHOR
Os seis soldados saíram do rancho após o jantar, por volta das 17:45 hrs, depois de jogaram a sobra de suas bandejas no latão de lixo, que sempre estava imundo, sentaram-se nos degraus e ficaram esperando o sargento de dia, que os conduziria de volta à Companhia.
- Pelotão
em forma em coluna de três – Disse o Sargento ao chegar.
Os
soldados se levantaram e ficaram em forma, em duas colunas de três.
-
Sentido.
- Em
direção à Companhia, marche.
O
pelotão, formado pelos soldados que estavam de serviço na Companhia naquele
sábado, nos plantões de alojamento, banheiro e garagem, seguiu rumo a
Companhia, onde outros três soldados que estavam na hora seriam substituídos às
18 horas.
O pelotão
seguiu pelos fundos do quartel, passou pelo cassino dos sargentos e depois por
uma parte quase desativada do quartel, mas à frente ficava a guarda 2 e a
cadeia. Ao passar pela cadeia o último soldado da coluna da direita falou bem
baixo ao soldado da coluna da esquerda.
- Tem um
cara preso ai, dizem que há anos, nem recebe visita, ninguém sabe o que fez.
- Deve
ser comunista – Disse o último soldado da esquerda.
- Na
semana passada eu estava de guarda na área de instrução, perto do primeiro
paiol, fiquei olhando o salto noturno dos paraquedistas e vi quando um desceu
direto, o paraquedas não abriu, ouvi o grito do soldado que ecoou no céu, era o
grito da morte, acho que nunca mais esquecerei aquele grito.
-
Pelotão, alto – Ordenou o Sargento.
O pelotão
parou imediatamente.
-
Descansar – Ordenou novamente o Sargento.
Os
soldados ficaram em posição de descanso, obedecendo os comando como se
fossem animais adestrados.
- Quero
silêncio durante o trajeto, nada de conversas – Disse o Sargento.
- Sim
Senhor, Sargento – Responderam todos.
-
Pelotão, sentido.
- Em
direção à Companhia, marche.
O pelotão
seguiu em silêncio até Companhia, entrou no pátio e em frente a entrada do
alojamento o Sargento ordenou:
- Alto.
-
Descansar.
- Ao meu
comando, fora de forma e lavar as bandejas.
Antes de
o Sargento ordenar o último soldado da coluna da direita levantou a mão.
- Fale
soldado.
-
Sargento eu posso fazer uma pergunta?
- Pode.
- O que
fazemos aqui?
- Como
assim?
- Por que
estamos aqui?
- Temos o
dever de defender a Pátria soldado.
- Eu não
vejo nada de útil no que ensinam aqui, no que estou aprendendo.
- E o que
você aprende aqui?
- A matar
meus semelhantes.
- Errado
soldado, você aprende a defender a Pátria dos seus inimigos.
- Não
Sargento, eu não tenho inimigos, sendo assim, vocês me ensinam a matar
semelhantes, nada mais.
- Número
soldado.
- 735,
Senhor.
-
Pelotão, fora de forma – Ordenou o Sargento e prosseguiu:
- Você
não 735, você fica.
Arnoldo
Pimentel
terça-feira, 3 de dezembro de 2013
THE END
O por do sol é logo ali
Depois do campo
Todos os meus discos estão trancados
Até o Jim Morrison
E o James
A Discovery desapareceu no céu ainda há pouco
Não existe farol
Não existe mar
Arnoldo Pimentel
quinta-feira, 14 de novembro de 2013
quarta-feira, 6 de novembro de 2013
"FAROL DE SÃO TOMÉ" OU "É PRECISO PARAR DE CHORAR"
FAROL DE SÃO TOMÉ OU É PRECISO PARAR DE CHORAR
Dedicado aos amigos Fabiano Soares da Silva e Rosilene
Ramos
Obs: “Farol de São Tomé” é título de um poema Do Fabiano
“É preciso parar de chorar” é um verso do poema
“Adorno” da Rosilene
FAROL DE SÃO TOMÉ OU É PRECISO PARAR DE CHORAR
Passam das dez horas
E o toque de silêncio
Avisa que é hora de apagar as luzes
Minha luta contra o regime opressor é eterna
Assim como minha busca em compreender Deus
Quase todas as camas estão vazias
E forradas com lençóis brancos
Vou deitar-me numa lá no canto
E ouvir o rádio baixinho para tentar dormir
Muitas músicas são proibidas
Aqui, quase tudo é proibido,
Por isso, ouço o rádio no volume mínimo,
Para que os guardas não possam ouvir
E vir com seus paus de barraca
A carceragem fica junto ao muro dos fundos
E sempre cabe mais um
Eu já estive naquelas celas, sei muito bem com o é
Eu tenho um livro de poesias
De uma poetisa amiga minha
Em um de seus versos ela diz
“Que é preciso parar de chorar”
Todas as noites aqui são escuras
E os dias não existem
Este lugar está cheio de fantasmas
Em noites de tempestade eles são visíveis
Eu sei, sempre os vejo.
Arnoldo Pimentel
quinta-feira, 17 de outubro de 2013
MONÓLOGO (Trilogia dos Lobos Parte III)
MONÓLOGO
TRILOGIA
DOS LOBOS PARTE III
Eu
acredito em Deus
Eu não
acredito em Deus
Eu
acredito em Deus
Eu não
sei mais em que acreditar
Eu
acredito em Deus
Ontem o
padre falou sobre o amor ao próximo
Falou
sobre Jesus e sobre o que Ele ensinou
Acho que
Jesus nunca vai conseguir
Colocar
amor no coração do homem
Por mais
que Ele queira
Todas as
manhãs eu tinha que rezar
E tomar
café
Só depois
eu podia ir brincar no quintal
Eu
brincava, corria, até cansar
Depois eu
ia até a cerca de madeira
A cerca
era pintada de branco
Eu me
encostava e ficava olhando lá longe
Os
prédios das cidades
Eu queria
muito ir às cidades
Eu
acreditava que nas cidades eu poderia ser...
Ser
alguém de verdade
Eu
acreditava nas cidades
Mas não
podia atravessar a cerca de madeira
Ali
dentro eu tinha o quintal
Eu tinha
as bênçãos, as razões, as ordens, os medos
O livro
virou decoração
As casas
estão vazias
As
igrejas estão vazias
O olhar
olha de um outro jeito
Eu queria
muito ir às cidades
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