terça-feira, 7 de novembro de 2017

A BATALHA NEGRA OU OS HOMENS QUE ESTAVAM NA VARANDA SE PROTEGENDO DA TEMPESTADE SOBRE O BOSQUE



- Menininho, venha aqui pra dindinha ajeitar esse uniforme. Hoje é seu primeiro dia na escola, tem que ir bonito.

O menininho foi até a dindinha que ajeitou o uniforme.
- Menina, cuidado com ele no caminho pra escola.
- Está bem tia.
- Agora vão pedir a benção a vovó e a mamãe.

A menina e o menininho foram a até vovó, a abraçaram e disseram:
- Sua benção vovó.
- Deus abençoe vocês.

Depois foram até a mãe:
- Sua benção mamãe.
- Deus abençoe.

A mãe se abaixou, abraçou e beijou o menininho, depois abraçou e beijou a menina.
- Não se esqueçam da dindinha. – Disse a vovó.

Eles abraçaram a dindinha e pediram a benção.
- Deus os abençoe meus anjos.

Quando estavam saindo pela porta da sala, a mãe disse:
- Menina, cuidado com ele, não atravesse na bomba, é perigoso, passe pelo parque para atravessar a rua.
- Sim senhora mamãe.

Eles saíram da casa, a menina fechou o portão e seguiram o caminho da escola pelo canto da calçada. Foram devagar e o menino parecia tranquilo, sem aquele medo da escola que era tão comum, depois de alguns minutos caminhando passaram pelo parque.

- A mamãe falou para atravessar pelo parque. – Disse o menino.
- Pela bomba é mais perto, não tem perigo. – Disse a menina
- A mamãe falou. – Disse o menino.
- Está bem, vamos pelo parque. – Disse a menina voltando e entrando no parque.

O parque de diversões ficava num terreno grande e só funcionava nos fins de semana, mas tinha a passagem livre e as mães preferiam atravessar por ali e não pelo posto de gasolina, chamado por alguns de bomba. Eles atravessaram a rua e seguiram em direção à escola. Um pouco antes da escola o menino parou.
- Menina, que lugar é esse todo de pedra?
- É um lugar aonde as pessoas buscam coisas invisíveis.
- É bonito lá dentro?
- Dizem que é muito bonito.
- E lá em cima, o que é?
- É uma torre, de lá dá pra ver muito além do mar.
- E você acredita em coisas invisíveis?
- Acredito, mas às vezes tenho medo.
- Medo de que?
- De crescer e deixar de merecer.
- Mas todos nós vamos crescer.
- É disso que tenho medo, de crescer.
- De crescer?
- De crescer e não ver mais o céu.
- Mas...
- Agora chega de conversa, chegamos na escola.

A escola parecia grande, e ficava ao lado da igreja de pedra, tinha dois pinheiros na entrada e dois lá nos fundos, depois do pátio, junto ao muro. O menino sentiu um certo tremor, mas foi em direção ao portão sendo puxado pela menina que estudava ali mesmo, ele olhou e entrou.

sexta-feira, 27 de outubro de 2017

BATALHA DO PACÍFICO

A BATALHA DO PACÍFICO


         O avião pousava no meio da rua. A rua era comprida e larga. Quase não havia casas. Eu costumava ficar na calçada da farmácia e de lá podia ver quando fazia a curva próximo da serra. Nesse momento eu saía correndo com os braços abertos como se estivesse num voo rasante sobre meu alvo numa batalha e ia, com os outros garotos da minha idade ver o pouso de perto.
          Depois de pousar o piloto agradecia os aplausos, nos abraçava e seguia para a padaria para tomar um café e conversar. Nós ficávamos ali, perto do avião, olhando todos os seus detalhes, esperando a hora de levantar voo. Era um avião daqueles usados na segunda guerra pelos americanos. Um avião com suas glórias e seus pecados. Um avião com seus sonhos e seus pesadelos.
          Eu gostava tanto que perturbei um vizinho que trabalhava com madeira até aprender fazer pequenos aviões. Fiz uns cinco aviõezinhos  de madeira e brincava com eles na varanda da casa onde morava. Tinha voos rasantes e terríveis batalhas aéreas.
         Um dia a rua foi diminuindo, muitas casas foram nascendo e o avião que ali pousava desapareceu, assim como meus aviões de brinquedo, que foram sendo deixados de lado conforme o tempo passava e eu crescia.
         De repente me vi numa batalha muito pior, muito mais difícil que aquelas aéreas no tempo de criança, mais real que Memphis Belle ou os filmes de batalhas aéreas com John Wayne, Gregory Peck ou Clark Gable, aquela que todos nós enfrentamos um dia, a batalha da vida. A batalha que por mais que façamos, por mais que lutamos, com lágrimas ou sorrisos, com chegadas ou partidas, com flores raras ou flores simples, daquelas lindas, colhidas em qualquer jardim, um dia chega ao seu fim.
Autor: Arnoldo Pimentel

segunda-feira, 10 de abril de 2017

A Verdadeira Estória de Como me Afoguei em uma Gota D'Água

Tenho as unhas sujas
como as de um cão que vai à feira
com sacos plásticos pendurados nas orelhas.

Mesmo sem ouvidos posso ouvi-los
esmurrarem com elegância e belos
o alfaiate contra a parede do ferro-velho.

Mesmo sem os dentes da frente
permito-me sorrir incendiário
a cada bordoada que ouço em meu imaginário.

Mesmo sendo eu.
O alfaiate, o cão e o banguela.
Não sou novela.


terça-feira, 12 de maio de 2015

AINDA EXISTEM SALAS ESCURAS




Às vezes olho o copo em cima do balcão
E vejo as caminhadas que era obrigado a fazer olhando todos os lados
Ainda encontro vestígios daqueles dias
Ainda encontro marcas da terra que engoliu o meu corpo.

O relógio ficava no lado direito da entrada
No meu lado esquerdo eu colocava minhas anotações
Eu acreditava nelas sem imaginar que se perderiam
Mesmo depois do abraço ao redor da lagoa
Mesmo depois da luta para se livrar dos riscos no corpo
E das sequelas, sempre imortais.
Mesmo depois dos gritos de euforia após tanto tempo de silêncio
Na praça onde os muros foram derrubados ao lado de amigos que nunca mais veria.

Nunca gostei de telefone
Deixava tocar, tocar, até a ligação cair
Quando subi o morro encontrei a palavra
A jaqueta que eu usava era jeans
A calça e a camisa por baixo da jaqueta também
Mas são tantas palavras, que ficaram embaçadas,
Procurei meus óculos
Mas havia esquecido em casa.

Ainda tenho o copo e os bares
Ainda tenho corpo
E ainda encontro os vestígios.

terça-feira, 13 de janeiro de 2015

O TIGRE DE PAPEL


           “Os homens que Pisaram na Cauda do Tigre” do mestre Kurosawa falava de valores como honra, dignidade, lealdade, talvez por isso tenha ficado na masmorra durante um tempo antes de ser liberado pelos censores. Os censores estão em todos os lugares, nas esquinas, nas escolas, no trabalho, na cidade, no campo e às vezes dentro de nós mesmos.
        
- Quer dizer que você está fazendo o dever de casa enquanto faço a chamada.
- Não tenho tempo professora, saio daqui e trabalho até tarde numa janela de frente pra rua, onde passam ônibus, caminhões e minha infância sem que eu a veja.
- Você ainda reclama. Vá para o quadro e escreva cem vezes o que eu ditar.
          A professora não ensinava democracia. Ela não sabia o que era democracia e gostava de atirar o apagador em nossas cabeças. Eu não sei o que é democracia, eu não conheço a coisa mágica que chamam de democracia. Uma vez eu estava numa manifestação trabalhista. Não havia ninguém nas ruas. As lojas estavam fechadas. Era uma greve. As reivindicações são sempre muitas, pois nunca são ouvidas. Como em todas as manifestações, os ânimos estavam exaltados, mas tudo estava sob controle até que eles apareceram, os da direita e os da esquerda, eles dizem que são diferentes, mas no fundo são iguais e eles iriam atirar, sempre atiram e nós éramos o alvo perfeito. Recuamos correndo pela rua, alguns amigos caíram, não tínhamos como ajudá-los, pois não tínhamos um opala, um gordini ou uma mercedes, ou uma cópia autenticada dos direitos humanos, só tínhamos nossa carteira de trabalho e um cartaz com os dizeres:
 “Não somos invisíveis, não somos almas ocas e queremos nossos direitos.”
Durante nossa fuga pela rua margeada por muros altos de concreto percebi que seríamos capturados, percebi que estamos mortos, que estamos todos mortos.
          Um dia levantei antes do sol, tirei minha mochila do armário e peguei a estrada que passava entre os abetos e os cactos floridos, eu podia ouvir a canção do vento cortando o céu onde as estrelas se moviam virando o rosto para não ver a liberdade em estado de sítio. Nessa viagem psicodélica eu imaginava que a estrada fosse infinita, que longe dali não haveria alamedas, porões, pátios vazios, números de registros ou salas decoradas, mas a estrada terminava no tempo que eu teria que bater na porta dos dias que nos esperam.
- Aonde vai?
- Vou pra longe, criar galinhas, plantar tomates e pimenta.
- Perdeu a coragem? Está fugindo da luta?
- Não. Cansei de lutar, já tenho muitas marcas, muitas marcas.

quinta-feira, 6 de novembro de 2014

A FLORESTA DE ABETOS





Aos sábados “James” e “Super” passavam a tarde e o começo da noite na varanda da casa do “Johnny” ouvindo música e tomando umas garrafas, às vezes de rum, às vezes de vodka, no som tocava Donna Summer, Al Jarreau, Roberta Flack, Gloria Gaynor, Marvin Gave, Diana Ross, Billy Paul, entre outros.

- James, o que você acha desse prédio que estão construindo na avenida?
- Não sei cara, não acho legal, bem na frente da varanda.
- Vai tirar a visão aqui de casa.
- E se ficarmos no lado leste ou no lado oeste da varanda?
- Vão acabar construindo ali também.
- Cara, não sou ativista ecológico, mas estão construindo prédios demais.
- Porra, vamos ouvir, é “Last Dance”.

Na cidade não havia muitos carros, não havia prédios, não havia shopping, só uma estação de trem, uma pequena rodoviária, um ou dois mercados, um posto de gasolina, uma ou duas agencias bancárias, quase nada. Bom, havia a floresta de abetos lá no fundo, de frente para a varanda do Johnny, mas parecia que o tormento do progresso estava chegando.

- Vocês se lembram do “Nacional Kid”? Ele foi proibido de voar porque alguns não gostavam de heróis voadores.
- Mas, porque não gostavam?
- Diziam que eles faziam mal à família, aos bons costumes.
- Os prédios vão acabar com nossa visão da floresta de abetos.
- Já sei, vou comprar um binóculo.
- Pra que?
- Pra olhar as janelas, principalmente a noite.
- Vai fazer como “Jeffries”? Você não tem nenhuma “Lisa Carol” para te ajudar.
- “Jeffries”? “Lisa Carol”? Quem é “Jeffries”?
-  Johnny, poderíamos juntar dinheiro e comprarmos outra coisa ao invés de binóculos.
- Comprarmos o que Super?
- Um jeep, é disso que iremos precisar quando esta terra estiver cheia de prédios.

terça-feira, 7 de outubro de 2014

MONTE ALEGRE



MONTE ALEGRE
Aos meus irmãos Cláudio Rangel, José Luiz, Fábio e nossos irmãos de infortúnio.

Na rua tinha uma espécie de sinalizador
A padaria ficava em frente a uma oficina mecânica
 E às vezes os tanques de guerra passavam por lá
Eu precisava saber a hora de atravessar a rua e pegar o ônibus à noite
Confesso que demorei um pouco para assimilar quando essa hora chegou
Durante uma tarefa de rotina nosso jeep capotou
O chefe da equipe dirigia o veículo e foi liberado
Nós fomos presos, o chão da cela era frio
As paredes pareciam nos espremer
Todos os relógios pararam
Só restou a vela acesa no canto
Que dava para o Monte Alegre
Não havia cobertor
Não havia cama ou colchão
Alguns dias não são esquecidos.

sexta-feira, 12 de setembro de 2014

NO CÉU HAVIA NUVENS




Ela não mora mais ali. O portão verde e a casa, que era grande, não existem mais. Ela gostava de passear pela praia, sempre pela manhã, porque era mais calmo, não tinha tantas pessoas. Quando sentia frio vestia um casaco que ia abaixo dos joelhos. Ela nunca viu o mar. Para passear na praia ficava desenhando no caderno, desenhava o mar, a areia, os sonhos e plainava na sua imaginação. Ela não gostava muito de bonecas, gostava do mar. Ela não tinha bonecas e morava longe, muito longe do mar. Seus irmãos não tinham bolas de futebol, não tinham carrinhos, brincavam no quintal.

- Crianças, todos para o quarto, arrumem a esteira, é hora de dormirem.

Já era tarde, não havia luz, a avó pegou o lampião da sala e levou as quatro crianças para o quarto. Elas abriram a esteira, forraram com lençol e deitaram. A janela ficava sempre aberta em noites quentes ou frescas como aquela. Não havia medo, elas estavam longe do mar, os tubarões vivem no mar. Elas estavam longe da selva, os leões vivem na selva.

- Sua bênção vó – disseram as crianças.
- Deus abençoe – disse a avó.
- Sua bênção tia, sua bênção mãe – gritaram as crianças.
- Deus abençoe – responderam a mãe e a tia lá cozinha, onde conversavam.

As luzes dos prédios são acesas ao anoitecer, é sempre noite.
São as cidades.
São as cidades.

Arnoldo Pimentel

quarta-feira, 3 de setembro de 2014

PAISAGEM DA LUA



      Eu morei no Brooklyn. Morei um bom tempo no Brooklyn. Tenho muitas fotos dessa época. Fotos das esquinas e com amigos que convivi. As fotos são todas em preto e branco. Gosto de fotos em preto e branco, acho que são mais reais, mesmo sabendo que talvez a realidade seja melhor na paisagem da lua. Tenho fotos de pessoas com sacolas atravessando a rua e fotos nos bares com amigos e nossas cervejas. Às vezes eu ficava perto da ponte, são muitas pontes, mas havia uma ponte diferente, era a ponte sobre as águas na parte do rio perto da curva onde enterram corações, onde enterram histórias e astronautas doidões. De um lado do rio ficava a estação de trem, parecia a estação onde se tocava gaita, de tão isolada que era. Do outro lado ficava a parada do ônibus que partia às cinco da manhã para Manhattan e só retornava as sete da noite. A parada do ônibus ficava na porta do bar onde eu e meus amigos bebíamos nossa cerveja ouvindo Joan Baez e declamando poesia. Numa noite dois parceiros cantaram uma música de autoria deles:  "Ela é minha Joa Baez, Eu sou Bob Dylan dela". É a última lembrança que tenho do bar na parada do ônibus, do tempo que eu não sei se volta mais.
       Eu morei no Brooklyn tantas vezes que nem lembro mais. Ainda passeio por lá algumas vezes, mas não tiro mais fotos, agora é tudo em cores e as fotos não são reais.

Arnoldo Pimentel